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domingo, 24 de abril de 2016

Humano, o Imortal


"Entendam bem, ser humano é conhecer.

Ser humano é compreender e o principal objeto desse estudo é o próprio ser humano. Claro, conhecer a física, a química, a matemática é muito bonito, maravilhoso. Mas tudo isso não serve para nada se o sujeito não compreender o ser humano. Existe uma obra notável sobre isso, a obra chamada A defesa de um matemático, de Thomas Hardy [G. H. Hardy]; foi um grande matemático do século XX. Nesse livro, ele vai escrever o seguinte:

‘Matemática é um algo maravilhoso, é genial, é incrível. Mas eu passei a minha vida toda só estudando matemática e a minha vida foi uma merda. Não valeu à pena, não entendi sobre mim mesmo. Tudo o que eu quis deu errado. Todas as pessoas de quem eu gostava se afastaram de mim. Não entendi nada, ninguém gosta de mim. A vida do matemático é uma droga. Porque essa foi a única coisa que eu quis compreender da realidade’ – ele mesmo fala – ‘eu posso até ter sido uma pessoa brilhante’ – porque foi de fato um matemático brilhante – ‘mas eu deveria ter usado essa inteligência para um objeto mais interessante, mais útil, que é o ser humano’.

A obra é interessantíssima, porque tem vários detalhes autobiográficos e várias coisas sobre matemática – por exemplo, nessa obra tem um capítulo, um ensaio sobre a apreciação estética das
fórmulas matemáticas. Provavelmente, a pessoa que tenha gostado um pouco de matemática – aquilo lá é um negócio brilhante, o sujeito era um gênio mesmo. Mas está lá um registro de que isso aqui não basta. Vocês podem se tornar um sujeito perfeito - um excelente profissional, um grande médico, um grande matemático, um grande político, um grande advogado, um grande ator; eu digo que isto não valerá nada. Quando chegar ao final, você irá dizer: ‘não valeu a pena’. Por quê? Porque o ser humano, enquanto ser humano, só serve para uma coisa: compreender. E ele não deve gastar essa vocação com ninharias. Essa é uma vocação tão sublime que está abaixo da dignidade dela ser desperdiçada exclusivamente com objetos pequenos e mesquinhos. Essa coisa, que é a inteligência humana, você a usa para entender do ser humano para cima; do ser humano para baixo, não vale. Para entender o ser humano ou coisas melhores. Menos do que isso, você está jogando fora o seu talento.





 Tomando um cafezinho, eu estava conversando com alguns dos alunos e levantou-se uma questão interessante que é o quanto a vida humana é curta para esse trabalho da inteligência; o quanto oitenta, noventa anos é pouco para isso. E aí se levantou uma questão: ‘mas se há uma vida depois da morte, você pode continuar’. Esta é uma questão interessante, porque se há uma vida depois da morte, ela é puramente espiritual. Então, se você levou uma vida como a do boi, só pensando em pagar as contas e resolver esses problemas, na hora em que esta vida te for tirada, vai ser muito pior para você se tiver outra vida depois dessa; se tiver uma vida puramente espiritual, na qual essa vida não existe mais. Tudo o que te definia como pessoa não existe mais, você perdeu. Então, havendo uma vida após a morte, ela só é de alguma maneira interessante para quem durante a sua vida nesse mundo se interessou de algum modo por uma atividade que fosse ela mesma também puramente espiritual. É justamente só para a pessoa que dedicou a vida dela – todo dia, uma ou duas horas por dia – para esse trabalho da inteligência, só para essa pessoa uma vida espiritual depois da morte tem algum interesse. Para as outras pessoas, essa vida seria um tormento, seria só um sofrimento.

O próprio Cristo falou que o seu coração está onde estão os seus tesouros. O que é um tesouro? É uma coisa que sua mente acalenta como valiosa; é uma coisa para a qual a atenção de sua mente se volta naturalmente. Se a sua mente está o tempo todo ocupada – ‘tenho que pagar a conta disso, tenho que fazer não-sei-o-quê, tenho que arrumar aquilo’ –, está só na vida biológica, quando você morrer ela vai continuar na vida biológica. Se ela continua funcionando depois da morte, ela vai continuar no mesmo processo, porque esse é o seu tesouro; só que esse tesouro estará longe de você. Isto é o inferno.

Existe um clássico sobre a meditação, uma grande obra sobre a meditação chamada Opúsculo sobre a arte de aprender e de meditar, de Hugo de São Vítor. Hugo de São Vítor foi um pensador que viveu no século XI, passagem do século X ao XI. Ele fala: ‘sim, uma das atividades mais importantes da vida humana é meditar. A vida humana é meditar’. Mas ele mesmo fala: ‘mas a meditação é impossível sem você recoletar certo material acerca do tema da meditação, porque toda meditação é acerca de algo. Onde você vai achar esses temas?’ Ele dizia: ‘só tem duas fontes de temas para a inteligência humana: a natureza e os livros. Não tem outras’. Claro, se você tiver a felicidade de morar no meio de um bosque maravilhoso, você pode tomar como base para a maior parte de suas meditações esse cenário idílico. Você sai da sua casa, senta do lado do riacho, fica ouvindo o barulhinho, vê as árvores, o ventinho passando e aí você vai usar isso como temas de meditação. Se você vive em um apartamento num paliteiro de prédios, eu sugiro que você compre alguns livros; é mais barato do que comprar o bosque.

Esse exercício diz que só isso é vida. O resto não é vida, o resto é um mecanismo cíclico que nunca avança. Nós pensamos assim: ‘se eu tiver mais dinheiro, o problema das contas vai sumir’. Mentira. Se eu tiver mais dinheiro, o problema das contas vai mudar de escala e vai continuar existindo do mesmo jeito; se eu tiver um bilhão de reais, o problema de contas será na escala de um bilhão de reais. Por quê? Porque isto é um mecanismo cíclico que não tem saída. É como a necessidade de alimento, a necessidade de sono ou a necessidade de sexo – tudo isso aí são mecanismos cíclicos. Vai dar uma volta no relógio e você vai precisar disso de novo. E depois vai acontecer de novo, de novo, de novo, de novo e assim vai ser sua vida toda. Isso não é vida, isso é um mecanismo. É somente na parte intelectual e espiritual que você possui uma vida, quer dizer, um processo de desenvolvimento que não se repete, mas que se abre para universos cada vez mais amplos. Somente aí existe um desenvolvimento real. Aliás, esse é um dos temas favoritos dos orientais em meditação: este mundo é Samsara; é uma série de ciclos que se repetem e que não se resolvem nunca. Essa é a figura que o oriental tem do mundo natural e essa figura é verdadeira, porque o mundo natural é assim mesmo, ele é uma indicação que não se resolve.

We move in circles
Balanced all the while
On a gleaming razor's edge.

É isso que põe o sujeito na dimensão realmente humana; é só isso que nos distingue dos animais. Não é o nosso jeito de pagar as contas com o real. Os animais pagam com o esforço físico; o boi tem que andar até a grama para pegar. E nós pagamos com um pedaço de papel, mas esse pedaço de papel significa esforço físico, é a mesma coisa. E pensem nisso: se existe uma vida após a morte, ela é um tormento para quem não viveu uma vida intelectual e espiritual antes da morte. Ela é só perder o que você tinha. Então, com este pensamento, eu vos deixo. Se existe uma vida após a morte, ela é um tormento para quem não tinha uma vida intelectual e espiritual antes da morte; ela é só perder tudo. 



Boa noite a todos."

Luiz Gonzaga de Carvalho Neto




segunda-feira, 21 de março de 2016

A Mais Poderosa Força do Universo

A experiência humana atinge seu ápice nas condições extemas, seja para o sumo bem, ou o mal. 

Relato do dr. Viktor Frankl, criador da logoterapia, durante seu encarceramento no campo de concentração de Auschwitz na Segunda Grande Guerra:


Quando nada mais resta 


Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu no horizonte em que assoma a alvorada por trás de um lúgubre grupo de nuvens. Mas agora meu espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo; e - tanto faz se é real ou não a sua presença - seu olhar agora brilha com mais intensidade que o sol que está nascendo. Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que experimento a verdade naquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora o sentido das coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia - e em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, por alguns momentos - entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. Pela primeira vez na vida entendo o que quer dizer: os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita...

À minha frente, um companheiro cai por terra, e os que vão atrás dele também caem. Num instante o guarda está lá e usa seu chicote sobre eles. Por alguns segundos se interrompe minha vida contemplativa. Mas num abrir e fechar de olhos eleva-se novamente a minha alma, salva-se mais uma vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma vez o diálogo com o ente querido: eu pergunto - ela responde; ela pergunta - eu respondo.

"Alto!" Chegamos ao local da obra: "Cada qual busque sua ferramenta! Cada um pegue uma picareta e uma pá!" E todos se precipitam para dentro do galpão completamente às escuras para arrebanhar uma pá jeitosa ou uma picareta mais firme. "Como é, não vão se apressar, seus cachorros imundos?" Dali a pouco estamos na vala, cada um em seu lugar da véspera. A picareta estilhaça o chão congelado, soltando até fagulhas. Nem mesmo os cérebros ainda degelaram, os companheiros continuam calados. Meu espírito ainda se apega à imagem da pessoa amada. Continuo falando com ela, e ela continua falando comigo. De repente me dou conta: nem sei se minha esposa ainda vive! Naquele momento, fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu "ser assim" (nas palavras dos filósofos), que a sua "presença" e seu "estar-aqui-comigo" podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de se estar com vida. Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva. Durante todo o período do campo de concentração não se podia escrever nem receber cartas. Mas isso, naquele momento, de certa forma não tinha importância. As circunstâncias externas não conseguiam mais interferir no meu amor, na minha lembrança e na contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela ocasião tivesse sabido: minha esposa está morta - acho que esse conhecimento não teria perturbado meu enlevo interior naquela contemplação amorosa. O diálogo espiritual teria sido igualmente intenso e gratificante. Naquele momento, apercebo-me da verdade: "Põe-me como selo sobre o teu coração (...) porque o amor é forte como a morte" (Cantares 8:6)











"A lembraça de Deus é logicamente função da correção de 
nossa noção de Deus e da profundidade de nossa compreensão: 
a Verdade, na medida em que ela é essencial e que nós a compreendemos, 
toma posse de todo o nosso ser e o transforma pouco a pouco 
e segundo um ritmo descontínuo e imprevisível. Cristalizando-se em nós, 
Ela "se torna o que nós somos a fim de nos tornar o que Ela é". 
A manifestação da Verdade é um mistério de amor, assim como, 
inversamente, o conteúdo do amor é um mistério da Verdade."
Frithjof Schuon

sábado, 12 de março de 2016

A Perda do Sentido Espiritual da Natureza


'O que se entende hoje do estudo da natureza física? É a ciência que procura estudar da natureza somente os seus aspectos diretamente mensuráveis, matematizáveis. Quer dizer, é uma espécie recorte da natureza onde se pega apenas os seus aspectos quantitativos mais facilmente captáveis e organizáveis num conjunto de relações. Relações que quando se revelam constantes, cíclicas, repetitivas, adquirem o nome de Leis. Lei científica, no contexto da ciência moderna, é uma espécie de equação matemática que se verifica repetidamente estabelecendo uma relação entre fatos da natureza. A ciência hoje em dia é do tipo descritiva-geométrica da natureza e que busca somente as repetições. Ora, o aspecto repetitivo e mensurável de um fenômeno, é evidentemente só uma faixa, um corte, uma fatia por assim dizer. Se você pegar antes do ciclo chamado Ciclo Moderno que começa com a Renascença, você verá que a ciência Física se ocupava de muito mais coisas, como por exemplo o papel do significado das coisas. O significado pressupõe uma intencionalidade. Ora, em todo o ciclo moderno e praticamente toda a cultura universitária atual, se baseia na idéia de que só existe intencionalidade no reino da intencionalidade humana e nada mais. Somente o ser humano possui intenções e portanto que age com um significado. Ao passo que todo o reino da natureza terá que ser explicado independentemente de significados. Ou seja, a ciência não se interessa pelo que a natureza nos comunica. Mas apenas em descrever e medir seu comportamento desde fora. Há um recuo da capacidade de compreensão. Evidente que esta concepção vem diretamente da divisão cartesiana entre a coisa pensante que é a nossa mente e a coisa extensa que é o objeto da natureza. No século XVIII, Leibniz vai mostrar que apenas o aspecto quantitativo, a medida, não basta para constituir o conceito de um ente real; e que portanto o mundo estudado pela física moderna não era propriamente real, mas um esquema matemático que coincide em certos pontos com o mundo real.

'Look, the skies are crying again'

É claro que esta despersonalização da natureza traz como consequência uma excessiva personalização do mundo da fala humana, porque o homem vivendo num universo hostil sem significado, acaba se sentindo mal e as suas necessidades de expressão e comunicação se tornam exacerbadas. Daí que ao mesmo tempo em que a ciência vai descrevendo um mundo cada vez mais impessoal, você vai vendo na prática o processo inverso: um processo de subjetivação cada vez maior. Por ex.: Na época de Shakespeare, no século XVIII (período romântico), as pessoas começam a falar de emoções interiores das mais subjetivas de uma maneira que nunca o homem tinha feito em toda sua existência. E então, nas memórias de Jean Jacques Rousseau você vai ver o indivíduo pegando a sua vidinha, a sua alminha e se desdobrando nos mais íntimos detalhes para todo mundo ver. Isto aí é um reflexo de uma despersonalização da natureza. Então, é um espécie de excesso para compensar um excesso contrário.

A situação urbana moderna é por um lado a expressão de toda essa ciência técnica. E dentro das cidades surge um tipo de cultura que é especificamente subjetivista como compensação. Como as pessoas estão muito oprimidas ali, então elas sentem que têm que exprimir os seus sentimentozinhos para sentir que são gente. Mas é uma expressão muito pobre e que vai corromper o sujeito ainda mais. Qualquer intenção humana que se superpõe à realidade, reflete demência, nada mais. O empregado que tira férias e vai para montanha acredita que está sonhando. E depois quando ele volta para o trabalho, acredita que voltou para a realidade. Mas é justamente ao contrário: as montanhas, o mar são realidades que já estavam aí há milênios. Isso não que dizer que temos que acabar com a civilização, com as máquina; mas que temos que colocar as devidas proporções nas coisas. Os mares, as estrelas, os planetas existem mesmo e nós estamos num mundinho pequenino de civilização colocando as nossas intenções. Mas este não é efetivamente o mundo real. É somente uma forma de adaptação humana a um mundo real que preexiste. A redução matemática que se fez da natureza é um fenômeno criado pelo homem. Quer dizer, é uma espécie de refúgio intelectual no qual o homem, aterrorizado dentro da complexidade da natureza, se esconde dentro de uma versão simplificada que ele mesmo inventou. Isto é uma reação primitiva. Essa simplificação mental que é feita pelo homem para não ver a realidade porque se está como medo dela (em vez de você estabelecer uma espécie de diálogo para tentar entender do que está se passando), não é uma reação do mundo moderno; ela sempre existiu no homem. Tem um historiador de arte que observou: Quanto mais você remonta para trás na historia da arte, as formas de desenho eram mais simplificadas, esquemáticas e geométricas. Porque que o homem primitivo em vez de desenhar o que via, desenhava figuras geométricas? É simples: ele estava no meio de uma confusão natural. Tendo medo daquilo, ele recuava para um mundo inventado, geométrico um mundo matematizável (dentro das possibilidades matemáticas que ele tinha). Quando você chega mais ou menos na época do império greco-romano, começa a ver que se alcançou aí um certo domínio da natureza que permite que o homem olhe de novo para a natureza, sem medo, e comece a gostar dela. Porém se você avançar mais, quando a civilização urbana cresce e tampa a natureza, aí você começa a idealizar a natureza cada vez mais: daí surge o romantismo, idealismo, essas coisas todas. É uma natureza, uma naturalidade inventada. Quando se fala em naturalidade inventada, não é só a visão do universo natural onde você tem a introdução do artificialismo. Mas na própria expressão dos sentimentos humanos. Na época de Jean-Jacques Rousseau onde era moda ser sincero, ele inventa emoções que não tinha, inventava até pecados que ele não cometeu em nome de ser sincero. Isso quer dizer que até no contato consigo mesmo, não só com a natureza exterior mas com a sua própria natureza íntima), o homem substitui o observado pelo inventado. A pesquisa histórica comprovou que muitas das sacanagens que Rousseau atribuía a si mesmo eram mais uma super-pose de sincero. O pessoal descobriu que ele não era tão ruim quanto ele dizia, era inventado mesmo.

Esse coisa de você tentar parecer pior do que é, essa sinceridade posada, é uma típica invenção deste terceiro estágio da civilização, onde a civilização urbana já tampou completamente a natureza. Como você não pode chegar nela, você a inventa. Ora, na mesma medida que você inventa a natureza exterior (como já dizia a divisa alquímica: como é em cima é em baixo) na medida em que você se afastou completamente da natureza sensível e agora tem que inventá-la, você acaba se afastando da  própria natureza interior e tem que inventá-la. Então já não se sabe mais o que se passa dentro de você. Você pode inventar uma fantasia lisonjeira ou deprimente. Mas tanto faz, você pouco sabe a respeito de si: a imaginação está inventado tudo. Se verificar as doutrinas modernas a respeito do inconsciente, existem tantas criações diferentes do inconsciente (Freud, Jung, Reich) que estou seriamente inclinado a acreditar que não tem nenhum santo. Porque ninguém pode observar tudo isto. E pergunto eu: será que um auto conhecimento autêntico seria tão diferente de pessoa para pessoa? Então eu teria um inconsciente freudiano, você teria um inconsciente Reichiano. O inconsciente deve ser mais ou menos igual para todo mundo. Quer dizer, estão tentando pegar a natureza interior do homem desde fora e com uma grade de conceitos mais ou menos inventada: exatamente como da a Física com a Matemática Tem-se que deixar a alma falar. A condição sine qua non para a alma falar é entender que ela não vai falar nada de acordo com a divisão dos conhecimentos que nós inventamos. Quer dizer, a natureza não vai dar hoje para você uma aula de Física, uma aula de química depois uma aula de gramática; ela não vai fazer isso. Então para começar a entender é preciso admitir em primeiro lugar que as nossas divisões universitárias do conhecimento foram inventadas por nós mesmos. E que a natureza é uma só e ela só pode falar de tudo junto. Você é que tem que depois separar e classificar. Mas se você espera que ela fale em qualquer das linguagens que nós concebemos, ela não vai falar. Ela vai ter que ter uma linguagem própria que é prévia, que é anterior, que é mais básica do que todas estas divisões. Mas precisamos entender esta linguagem que é a linguagem simbólica. A Ciência Natural (no tempo que os filósofos ainda eram capazes de interpretar algo da ciência natural) era simultaneamente uma ciência espiritual. E os muitos sentidos dos símbolos remetiam aos diversos aspectos do conhecimento mesmo. A gente só vai entender a Física de Aristóteles se entender isto aqui. A física antiga podia ser ao mesmo tempo uma teologia e uma psicologia transcendental. O que é psicologia transcendental? É a psicologia dos aspectos superiores, cognitivos do homem. Ora, para o nosso conceito atual de ciência física qualquer consideração de ordem teológica ou de psicologia, transcendental é totalmente extemporânea (porque a física só se ocupa de medir relações matematizáveis: ela entende disso como ciência natural). Bom, por um lado tem uma ciência natural por outro lado tem o estudo da natureza que é por um lado a física, a matemática; e por outro lado existe o estudo do homem que é história, sociologia etc... E os aspectos espirituais da própria natureza, onde ficam? Não ficam, não há lugar para eles. Eles não podem ser captados nem pela Física, nem pelas ciências naturais, nem pelas ciência humanas. Porque é algo mais básico do que essa divisão natural e a feita pelo ser humano. Ela é intrinsecamente inseparavelmente natural e humana.

É justamente essa síntese do natural e humano no divino que caracteriza este ciclo pré-moderno. Se você pega a linguagem humana, alguns dos símbolos humanos então é ciência humanas (astrologia história, lingüística etc.) Por outro lado, você tem uma linguagem cósmica (que é a ciência da Física etc.); mas não é bem uma linguagem; é um conjunto de esquemas. Mas quando junta isso aqui? No mundo cartesiano, porque nele a mente e o corpo e a coisa extensa não se juntam. Ora, isso aí é simplesmente uma divisão do saber.

É absurdo que essa divisão do saber coincida exatamente com a divisão da realidade. Porque estas 2 coisas não estão realmente separadas. Aonde está o mundo humano (o mundo histórico, da línguas etc.)? Está dentro do Cosmos e chega ao nosso conhecimento se não através das estruturas dos conceitos, da linguagem que nós mesmos inventamos para captá-la. Esse é o máximo problema do conhecimento do século XX que seria onde se capta a linguagem comum da natureza e do homem? E onde está esta linguagem? Bom, por um lado ela está na imensidão da natureza visível. E acima, está na esfera puramente metafísica. É no plano supra-sensível que nós vamos ter que juntar a linguagem humana e cósmica na linguagem divina. Se existe a ciência da interpretação da linguagem divina, é exatamente destas bases complementares da alquimia que nós estamos falando. Quer dizer que se, de cara, nós abolíssemos da ciência as considerações das chamadas causas finais, as finalidades nós não vamos entender coisa nenhuma. Se nós acreditamos que na ciência física tudo pode ser explicado apenas pela causa eficiente (por aquilo que provocou o acontecimento e não a finalidade pelo que acontece) não vamos entender nada. Ora, o presente número 1 do método científico da Renascença é abolir estas causas finais (abolir a finalidade e estudar somente as causas eficientes). Por outro lado, se existe uma intencionalidade natural, ela não é uma intencionalidade no sentido humano porque senão nós vamos cair de novo no Romantismo (quer dizer, a chuva que cai, vai falar da namorado que ele largou ontem) Ou seja, se a natureza fala e tem intencionalidade, o que ela fala deve ser uma coisa completamente diferente daquilo que se fala no mundo exclusivamente, na sociedade. E o que ela fala também deve ser muito diferente do que captamos na natureza quando observamos de fora como mero tecido de relações matematizáveis. Para complicar mais a coisa, aconteceu que este estudos alquímicos, metafísicos etc.. bem como as tradições que ser tornaram portadoras deste conhecimento, se tornaram objeto de interesse das ciências humanas. Então hoje existem estudos históricos, antropológicos, sobre alquimia e ritos que tentam encarar todos estes conhecimentos apenas sob o ponto de vista da linguagem humana. Aí é que a confusão chegou no seu máximo. Estudos sobre o esoterismo seriam na verdade uma esoterologia (na verdade seria um estudo sobre o que certas culturas falaram sobre os conhecimentos esotéricos; os quais nunca são enfocados como tais, mas apenas no seu reflexo cultural) Por ex.. agente pode explicar que tal cultura acreditava em duendes. A antropologia pode verificar isso aí. Agora a antropologia não pode verificar se o duende existe ou não. Agora, se eu não sei de uma determinada crença reflete algo da realidade objetiva ou não, como é que eu vou entender esta crença? Por ex.: você acredita que você assistiu esta aula porque você esteve aqui. Agora, amanhã ou depois o sujeito vai estudar sua psique e vai querer os fundamentos da sua crença nesta aula sem levar em conta que a aula realmente aconteceu.

Outro exemplo: na América não havia cavalos (os espanhóis que trouxeram). Daí depois que os índios viram cavalos eles passaram a acreditar em cavalos. Agora explique a crença dos índios em cavalos sem levar em conta que os espanhóis trouxeram cavalos para a América. Aí você podia dizer na cultura indígena existia alguns símbolos que explicavam a crença neste tipo de seres. E você vai ter que achar uma explicação antropológica para aquele negócio; Mas não tem explicação antropológica para isso; não tem explicação antropológica alguma! O sujeito acredita em cavalo porque ele viu cavalo. Por outro lado uma cultura também pode implicar a crença em coisas que não existem, algumas maluquices de fato? Só que antropologicamente nós não temos como distinguir as duas. Quer dizer que uma crença sensata ou uma crença insensata, antropologicamente valem a mesma coisa. Então uma vez que se perde a capacidade de apreender o sentido espiritual da natureza e cai no cartesianismo dualista, não se tem mais condição de distinguir se uma cultura está todinha louca ou se ela está instalada na realidade.'

Olavo de Carvalho



"O Lórien! The Winter comes, the bare and leafless Day;
The leaves are falling in the stream, the River flows away.
O Lórien! Too long I have dwelt upon this Hither Shore
And in a fading crown have twined the golden elanor."
  


domingo, 4 de outubro de 2015

Como ser fiel a si mesmo a seguir sua vocação


'Entre as várias inclinações possíveis que nos acometem, cada um de nós sempre encontra aquela que é a mais genuína e autêntica. A voz que o convoca para esse ser legítimo é o que denominamos “vocação”. Mas a maioria das pessoas se empenha em silenciar a voz da vocação e se recusa a ouvi-la. Conseguem gerar ruído dentro de si mesmas (...) distrair a própria atenção a fim de não ouvi-la; e se iludem ao substituir o eu genuíno por uma vida falsa.






Muitos dos grandes Mestres da história confessaram ter experimentado alguma espécie de força oculta, de voz interior ou de senso de destino que os impulsionava no rumo certo. Para Napoleão Bonaparte foi sua “estrela”, que ele sempre sentia ascender quando fazia o movimento certo. Para Sócrates, foi seu demônio, uma voz talvez de seres superiores, que falavam com ele em negativas – dizendo-lhe o que evitar. Goethe também a chamava de demônio – uma espécie de espírito que habitava dentro dele e o impelia a realizar seu destino. Em tempos mais modernos, Albert Einstein se referia a uma espécie de voz interior, que orientava o rumo de suas especulações. Todas essas manifestações são variantes do que Leonardo da Vinci experimentou com seu próprio senso de destino. Esses sentimentos podem ser vistos como puramente místicos, além de qualquer explicação, ou como alucinações ou delírios. Mas há outra forma de encará-los – como algo real, prático e explicável. É possível compreendê-los da seguinte maneira:


Todos nascemos como seres únicos. Essa singularidade é característica genética de nosso DNA. Somos fenômenos sem igual no Universo – nossa composição genética exata nunca ocorreu antes nem se repetirá jamais. Em todos nós, essa singularidade se expressa pela primeira vez na infância, por meio de certas inclinações primordiais. Para Leonardo, foi a exploração do mundo natural em torno de sua comuna, ao qual deu vida no papel, à sua maneira. Para outros, pode ser uma atração precoce por padrões visuais – não raro um indício de interesse futuro por matemática. Ou quem sabe um fascínio por movimentos físicos ou arranjos espaciais.


Como explicar essas inclinações? São forças dentro de nós que vêm de um lugar profundo incapaz de ser descrito por palavras conscientes. Elas nos atraem para certas experiências e nos afastam de outras. À medida que essas forças nos movimentam para lá e para cá, influenciam o desenvolvimento de nossa mente de maneira muito específica. Essa singularidade profunda naturalmente quer se afirmar e se expressar, mas algumas pessoas a experimentam de modo mais forte que outras. No caso dos Mestres, sua intensidade é tamanha que ela é percebida como uma realidade externa – uma força, uma voz, um destino. Nos momentos em que nos dedicamos a atividades que correspondem às nossas inclinações mais arraigadas, até sentimos um toque dessa realidade: as palavras que escrevemos ou os movimentos que executamos ocorrem com tanta rapidez e com tanta facilidade que até parecem se originar fora de nós. Estamos literalmente “inspirados”, palavra de origem latina que significa “soprar dentro”.


Podemos descrevê-la nos seguintes termos: ao nascermos, planta-se uma semente em nosso interior. Essa semente é a nossa singularidade. Ela quer crescer, transformar-se, florescer em todo o seu potencial, movida por uma energia assertiva natural. A sua Missão de Vida é cultivar essa semente até o pleno florescimento, é expressar sua singularidade por meio do trabalho. Você tem um destino a realizar. Quanto maior for a intensidade com que o sentir e o cultivar – como uma força, uma voz ou o que quer que seja –, maior será sua chance de realizar a sua Missão de Vida e alcançar a maestria.


O que atenua essa força, o que faz com que você não a sinta ou mesmo duvide de sua existência, é a extensão em que sucumbe a outra força da vida – as pressões sociais para o conformismo. Essa contraforça pode ser muito poderosa. Você quer se encaixar em um grupo. Inconscientemente, talvez sinta que o que o distingue dos demais é algo embaraçoso ou doloroso. Seus pais muitas vezes também atuam como contraforça. Pode ser que tentem direcioná-lo para uma carreira lucrativa e segura. Se essas contraforças se tornam poderosas demais, você perde qualquer contato com sua singularidade, com quem você realmente é. Suas inclinações e seus desejos passam a se moldar em outras pessoas.


Essa situação pode lançá-lo em terreno muito perigoso. Você acaba escolhendo uma carreira que não é compatível com sua personalidade. Seus desejos e interesses aos poucos se desvanecem e seu trabalho sofre as consequências. Você passa a procurar prazer e realização fora do trabalho. Ao se desengajar cada vez mais da carreira, deixa de prestar atenção nas mudanças dentro de sua área de atuação – fica para trás e paga por isso. No momento de tomar decisões importantes, você se esconde ou segue o exemplo dos outros, pois não tem senso de direção nem uma bússola interior que o oriente. Perdeu o contato consigo mesmo. Você precisa evitar esse destino a todo custo. O processo de seguir a sua Missão de Vida que o leva à maestria pode ser iniciado a qualquer momento. A força oculta está sempre presente dentro de você, pronta para entrar em ação.


O processo de realizar a sua Missão de Vida se desenvolve em três estágios. Primeiro, você precisa se ligar ou religar com suas inclinações, com aquele senso de singularidade. Portanto, o primeiro passo é sempre introspectivo. Você vasculha o passado em busca de indícios daquela voz ou força interior. Silencia as outras vozes que podem confundi-lo – como as de pais e amigos. Procura um padrão subjacente, o âmago de seu caráter, que você deve compreender da forma mais profunda possível.


Segundo, com o restabelecimento da conexão, você deve examinar a carreira em que já está ou que está prestes a iniciar. A escolha desse caminho – ou seu redirecionamento – é fundamental. Nesse estágio, é preciso ampliar seu conceito de trabalho. Com muita frequência, estabelecemos uma distinção entre vida profissional e vida pessoal, sendo que só nesta última encontramos prazer e realização. O trabalho geralmente é visto como um meio de ganharmos dinheiro para aproveitar a vida fora dele. Mesmo que encontremos alguma satisfação em nossa carreira profissional, ainda tendemos a compartimentar a vida dessa maneira. Essa é uma atitude deprimente, pois, afinal, passamos no trabalho uma parcela substancial das horas em que estamos acordados. Se encararmos a vida profissional como uma provação a ser enfrentada para alcançarmos as verdadeiras fontes de prazer, as horas despendidas no trabalho representarão um trágico desperdício de nossa curta existência. Em vez disso, é desejável ver o trabalho como algo mais inspirador, como parte de sua vocação. A palavra “vocação” vem do latim e significa chamado ou convocação. Seu uso em relação ao trabalho coincidiu com o início do Cristianismo – certas pessoas eram “convocadas” por Deus a abraçar a vida religiosa; essa era sua vocação. Os primeiros cristãos seriam capazes de “ouvir” literalmente sua vocação, ao escutarem o chamado de Deus, que os escolhera para esse trabalho de salvação. Com o passar do tempo, o termo se secularizou, passando a se referir a qualquer trabalho ou estudo que alguém sentia ser compatível com sua personalidade. No entanto, é hora de retornarmos ao sentido original do termo, pois ele se aproxima muito mais da ideia de Missão de Vida e de maestria.


Essa voz que o convoca vem de um lugar profundo da alma. Ela emana de sua individualidade.  Indica quais atividades são mais compatíveis com seus interesses. E, a certa altura,  ela o chama para um tipo especial de trabalho ou carreira. Nesse caso, o trabalho passa  a ser algo profundamente conectado com o seu ser, não um compartimento isolado.  É assim que se desenvolve o senso de vocação.


Você deve encarar sua carreira ou caminho vocacional mais como uma jornada, com suas curvas e desvios, do que como uma linha reta. Você começa escolhendo uma área ou posição que corresponda mais ou menos às suas inclinações. Esse ponto de partida lhe oferece espaço para manobra e indica importantes habilidades a serem aprendidas. Não se pode começar com algo muito grandioso e ambicioso – você precisa ganhar a vida e conquistar confiança. Uma vez nesse caminho, você encontra certas trilhas internas que o atraem, enquanto outras o desagradam. Ajusta o curso e talvez se movimente para outra área assm, mas sempre expandindo sua base de qualificações. Como Leonardo, você parte do que faz para os outros e o converte em algo próprio.


No final, descobre determinada área, nicho ou oportunidade que se encaixa perfeitamente com suas inclinações. Você o reconhecerá tão logo o encontre, pois ele irá disparar aquele senso infantil de deslumbramento e empolgação. Depois disso, tudo se encaixará. Você aprenderá com mais rapidez e mais profundidade. Seu nível de habilidade chegará a um ponto em que você será capaz de reivindicar sua independência no ambiente de trabalho e tomar seu próprio rumo. Em um mundo em que não há tantas coisas que não conseguimos controlar, essa condição lhe proporcionará o máximo de poder. Você determinará suas circunstâncias. Como seu próprio Mestre, não mais estará sujeito aos caprichos de chefes tirânicos ou de colegas manipuladores.


Essa ênfase em sua singularidade e em sua Missão de Vida talvez pareça um conceito poético, sem qualquer relação com a realidade prática, mas, na verdade, ela é bastante relevante para os tempos em que vivemos. Estamos entrando numa era em que podemos confiar cada vez menos no Estado, nas empresas, na família ou nos amigos como fontes de ajuda e de proteção. É um ambiente globalizado, altamente competitivo. Precisamos aprender a nos desenvolver. Ao mesmo tempo, é um mundo apinhado de problemas graves e de oportunidades promissoras, que serão mais bem resolvidos e aproveitados pelos empreendedores – indivíduos ou pequenos grupos que pensam de forma independente, se adaptam com rapidez e possuem pontos de vista únicos. Suas habilidades criativas sem igual serão muito valorizadas.


Pense nisso da seguinte maneira: no mundo moderno, o que mais falta em nossa vida é o senso de um propósito mais amplo. No passado, eram as religiões organizadas que ofereciam esse sentimento. No entanto, hoje quase todos vivemos em um mundo secularizado. Nós, seres humanos, somos únicos, e portanto devemos construir nosso próprio mundo. Não reagimos simplesmente aos acontecimentos por algum código biológico. Porém, sem o senso de direção, ficamos confusos. Não sabemos preencher e estruturar nosso tempo. Parece que não dispomos de um propósito na vida. Talvez nem mesmo tenhamos consciência de nosso vazio, mas ele nos contamina de todas as maneiras.


Sentir que somos convocados a realizar algo é a forma mais positiva de alcançarmos esse senso de propósito e de direção. É como uma busca religiosa para cada um de nós. Essa procura não deve ser vista como egoísta ou antissocial. Ela, de fato, se relaciona com algo muito maior que a vida de cada um. Nossa evolução como espécie dependeu da criação de uma grande diversidade de habilidades e de pontos de vista. Prosperamos com base na atividade conjunta de pessoas dotadas de talentos singulares. Sem essa diversidade, a cultura morre.


A singularidade de cada um ao nascer é o fator fundamental dessa diversidade indispensável. Na medida em que ela é cultivada e expressada, um papel fundamental é exercido. Nossos tempos enfatizam a igualdade, o que pode ser confundido com a necessidade de todos serem idênticos. No entanto, essa igualdade na verdade oferece a todos as mesmas oportunidades para expressar suas diferenças, permite o florescimento da
biodiversidade. A vocação é mais que um trabalho a executar. É algo que se relaciona com a parte mais profunda do ser e que é manifestação da enorme diversidade na natureza e na cultura humana.

                                

Cerca de 2.600 anos atrás, Píndaro, poeta da Grécia Antiga, escreveu: “Torna-te quem és aprendendo quem és.” O que ele queria dizer com isso é o seguinte: você nasceu com determinada compleição e com certas tendências que o caracterizam. Algumas pessoas nunca se tornam quem são em seu âmago; param de confiar em si mesmas, sujeitam-se às preferências alheias e acabam usando uma máscara que oculta sua verdadeira natureza. Se você criar condições para descobrir quem realmente é, prestando atenção na voz e na força em seu interior, poderá realizar o seu destino – tornando-se um indivíduo, um Mestre.'

Robert Greene - Mastery

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A mais elevada Vocação Humana




Raissa Maritain nasceu em 1883, na Rússia. Aos dois anos sua família mudou-se para Mariupol, na Criméia. Com 10 anos seus pais emigraram para Paris e aí, desde cedo, manifestou especial inclinação para o estudo. Aos dezessete anos ingressou na Sorbonne.




Este é o relato que ela nos deixou sobre o que encontrou nesta que era em sua época a mais famosa Universidade do mundo:



"Dezessete anos, diz Raissa, apenas dezessete anos, e as mais profundas exigências do espírito e da alma já se fazem ouvir! Toda uma vida já foi vivida, a da infância, a da confiança ilimitada. Agora, eis a adolescência, com seu cunho próprio: uma exigência total

.

Se os professores se lembrassem um pouco de sua própria alma de adolescentes, como tremeriam diante da ingenuidade dos que vêm a eles com a confiança ainda de uma criança, mas já com os direitos de um juiz justo!



Mas os professores de meu tempo, por melhores, dedicados e competentes que fossem, de geração em geração tinham se afastado cada vez mais das grandes exigências do espírito humano. O brilhante desenvolvimento das ciências da natureza e as esperanças infinitas que havia despertado, os levaram a desprezar os outros conhecimentos, em particular a esta sabedoria pela qual aspiramos antes, depois e acima de qualquer conhecimento das ciências particulares. Assim era a Sorbonne no começo de nosso século nos anos que precederam a guerra de 1914.



Quando nela ingressei, preocupei-me apenas em encontrar estes professores dos quais esperava que, sem que eu os interrogasse, fossem responder às minhas perguntas, dar-me uma visão ordenada do Universo, por todas as coisas no seu verdadeiro lugar. Depois de tudo isso saberia, eu também, qual é o meu lugar nesse mundo e se poderia ou não aceitar a vida que não escolhi e que me pesava.



O que me movia não era a curiosidade, não estava ávida de saber uma coisa qualquer, ainda menos de saber tudo; não estava perturbada pelas descobertas da ciência, no momento estas me deixavam bem indiferente, como algo de excedente mas que não me afetava diretamente. Não, eu só procurava verdadeiramente aquilo de que precisava para justificar a existência, aquilo que me parecia, a mim, necessário para que a vida humana não fosse uma coisa absurda. Tinha necessidade da alegria da inteligência, da luz da certeza, de uma regra de vida fundada sobre uma verdade sem falhas.



Com semelhantes disposições, evidentemente, eu deveria terme dirigido primeiramente aos filósofos. Mas ninguém me tinha orientado, e eu acreditava então que as ciências da natureza eram a chave de todo o conhecimento. Inscrevi-me, portanto, na Faculdade de Ciências. Nenhuma das minhas interrogações foi tratada pelos sábios eminentes que nos ensinavam a estrutura do Universo Físico. Aqueles que amavam o estudo tranqüilo da natureza eram observadores admiráveis. Mas, quanto a mim, preocupava-me com essa mesma natureza, mas queria conhecê-la de outra maneira, nas suas causas, na sua essência, na sua finalidade. Um dia aventurei-me a dizer isso ao professor e ele me respondeu indignado:



`Mas isso é mística!'



Desde então ouvi esta fórmula de escândalo muitas vezes na Sorbonne. Era com ela que costumavam condenar qualquer atividade da inteligência que procurava se elevar acima da simples verificação empírica dos fatos. Mas para mim foi a primeira ferida, o primeiro golpe no meu espírito, na confiança que depunha nos meus professores. Tive que aprender que os sábios pouco estimam os supremos princípios da inteligência, ou pelo menos não parecem preocupar-se muito com eles. Os valores puramente especulativos os interessam bem pouco, e as matemáticas são o seu mais alto céu inteligível. Os sábios, quando não filosofavam, se limitavam em geral ao simples bom senso empírico. Os que filosofavam e que conheci na Sorbonne eram, quando muito, partidários de doutrinas que negavam a objetividade de todo saber que ultrapassasse o conhecimento dos fenômenos sensíveis. Perguntava-me como os notáveis homens de ciência, cujos cursos eu seguia, ou aqueles cujos livros eu lia, podiam permanecer tranqüilamente num estado de espírito tão vago e tão confuso, sem preocupação alguma. Decepcionada com os estudiosos das ciências da natureza, Raissa nos conta que passou então a freqüentar os cursos dos professores que se dedicavam à filosofia:


Os filósofos cujos cursos passei a seguir na Faculdade de Letras tinham muitos méritos, possuíam erudição ampla e profunda, e uma alta consciência das exigências da investigação científica. Mas toda a sua inclinação era para a erudição histórica; consideravam as doutrinas não como proposições ou aproximações da verdade, mas como obras de arte ou de imaginação, tendo até menos referência com a realidade do que a arte, reduzindo seu estudo a um desfile caleidoscópico em que a forma nova destruía a anterior. Entregavam-se à análise sem fim das particularidades das causas históricas das doutrinas filosóficas como se esta fosse a tarefa que lhes cabesse de modo essencial. Por uma estranha contradição vivida, queriam verificar tudo e ao mesmo tempo desesperavam da verdade, cujo simples nome lhes desagradava e que não devia ser pronunciada senão entre as aspas de um sorriso desiludido. A única lição prática que pude receber daquele ensino tão consciencioso e desinteressado foi uma lição de relativismo integral.



Finalmente, fiz um balanço de tudo o que me tinham trazido  aqueles anos de estudo na Sorbonne. Não queria saber mais de uma tal comédia. Eu seria capaz de aceitar uma vida dolorosa, mas não uma vida absurda. Eu queria saber se ser é um acidente, um benefício ou uma desgraça. Se a natureza humana era tão infeliz que não chegava a possuir senão uma pseudo inteligência, capaz de tudo menos da verdade, se ela, ao julgar-se a si mesma, devia humilhar-se até esse ponto, não se podia mais nem pensar nem agir dignamente. Tinha pensado durante muito tempo que ainda valia a pena lutar pelos pobres, mas agora eu via que se não houvesse no mundo um só coração que padecesse certos sofrimentos, mesmo que não houvesse no mundo um só corpo que não conhecesse a morte, ainda assim isso exigiria uma satisfação."



Este é o testemunho de Raissa sobre o que ela encontrou na Universidade de Paris no início do século XX. Isto que ela ali buscava, algo que estava inteiramente fora das cogitações por parte dos professores daquela Universidade, isto mesmo entretanto tinha sido o objetivo perseguido pelos professores daquela mesma Universidade quando lá ensinavam nos séculos XII e XIII Hugo de São Vitor e Santo Tomás de Aquino. Raissa tinha se dirigido ao lugar certo, mas com sete séculos de atraso.



Que são, porém, suas palavras, senão um testemunho vivo de nosso século XX de que a contemplação não é um fenômeno cultural restrito a tal ou qual civilização, mas uma aspiração profunda da natureza humana; algo, no dizer de Raissa,


"a que aspiramos antes, depois e acima de qualquer 
conhecimento das ciências particulares?"

E de cujas palavras se deduz ser também o fim último da educação, pois não foi senão à Instituição que era o vértice do sistema educacional do mundo da época que Raissa se dirigiu como ao lugar mais óbvio quando quis satisfazer a esta mesma aspiração.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Beleza da Vida Contemplativa

"Vamos fazer algumas considerações no
sentido de mostrar que tipos de desafio pode a inteligência encontrar já na simples
contemplação da natureza. Se não se é capaz de perceber isto de imediato, apesar de
estarmos mergulhados na natureza o tempo todo, é apenas porque estamos habitualmente
preocupados com insignificantes problemas do dia-a-dia que desviam toda a atenção de
nossa inteligência do espetáculo extraordinário que nos circunda.
Para tentarmos compreender o alcance desta afirmação, vamos considerar o
ato mais trivial de qualquer estudante, o ato de vir à escola. Consideremos, ademais, um
estudante habitualmente preocupado, um estudante de escola noturna.
Antes de vir à escola, para retemperarmos nossas forças e não sentir o
incômodo de assistir à aula com fome, jantamos em nossas casas.Este simples ato já é por
si um verdadeiro espetáculo.

Para tomarmos o alimento, a natureza teve que elaborar um sistema
digestivo bastante complexo para ser capaz de digerir precisamente aqueles mesmos
alimentos que ela própria, por outro lado, oferece a todos abundantemente.
Recolher estes alimentos esparsos pelo mundo para produzir uma simples
janta seria uma tarefa penosíssima. Mas tudo isto, naquele momento, já tinha sido
resolvido. Centenas de pessoas haviam estudado agricultura, haviam plantado nos lugares
mais diversos cada um dos alimentos que iriam ser utilizados em nossa janta, outra
multidão os colheu, centenas de homens os transportaram, outros os conservaram, e outros,
finalmente, se especializaram em saber distribuí-los e vendê-los, deixando-os localizados
em lugares de fácil acesso para que nós os adquiríssemos.

Assim, naquele momento, um mundo imenso de pessoas na verdade estava
se preocupando conosco, e a própria natureza também, que sabiamente preparava as chuvas
para a lavoura e fornecia ao nosso corpo as enzimas necessárias à digestão justamente
daqueles alimentos que ela própria produzia.
Nós, porém, ali sentados, não prestamos atenção a nada disso. Só
queríamos sair correndo para não chegar atrasados à escola.
Quando saímos de casa, porém, outro espetáculo não menos fantástico
estava preparado.

Alguém tinha construído um elevador para nosso uso, e o tinha instalado
exatamente no lugar onde era necessário para nosso pronto e imediato transporte. Para que
o elevador estivesse ali, quantas pessoas não tinham trabalhado! Quanto carvão não teve
que ser usado para produzir seu aço, quanta madeira não teve que ser plantada para
construir suas portas, quantos operários e engenheiros não reelaboraram este aço e esta
madeira para transformá-la em um elevador; quantos outros operários e engenheiros não
tiveram que prever na planta do edifício todo o trabalho dos colegas que fabricavam o
elevador. Mas depois, alguém continuava bombeando ininterruptamente energia elétrica de
muito longe para que ele funcionasse com apenas um toque de nosso dedo; e para que este
alguém pudesse fazer isto, milhares de outros homens tiveram que represar um rio e criar
um lago artificial, para fazer o que, ademais, tiveram antes que criar uma cidade operária
nas proximidades do campo de obras da represa!
A rua, ademais, estava calçada. Outras pessoas, sabe-se lá quantas, tinham
se preocupado com isto também. A rua estava calçada, e estava também asfaltada, para
fazer com que um ônibus pudesse trafegar para nossa comodidade. Sem que o pedíssemos,
não apenas um ônibus, mas os mais diversos ônibus passavam regularmente à nossa
disposição para nos levar não a um só lugar, mas a qualquer lugar que quiséssemos. Para
isto milhares de pessoas tiveram que estudar mecânica, projetar os ônibus, construir os
ônibus, vender os ônibus, fazer a manutenção dos ônibus, dirigir os ônibus, explorar
petróleo, refinar petróleo, transportar gasolina, educar motoristas, educar o trânsito,
sinalizar o trânsito, e não só tinham feito tudo isso como o continuavam fazendo
incessantemente para que pudéssemos tomar o ônibus naquele momento ou a qualquer
momento.

Naquele momento o Sol se punha. O Sol também fazia parte do espetáculo.
Fazia séculos que o Sol brilhava todos os dias, e por causa disso é que podíamos enxergar
todas as coisas, mas o que é incrível, porém, é que nós não percebemos ou pensamos nisto
um só momento.

Estávamos preocupados, como sempre, com um insignificante problema
pessoal, infinitamente menor do que tudo isso, teoricamente muito menos capaz de chamar
a atenção de qualquer ser inteligente por mais obtuso que fosse, mas que na verdade era
exatamente o que estava conseguindo tirar toda a nossa atenção daquele espetáculo
fantástico: o temor de um atraso pessoal de alguns minutos.
Como é possível que uma coisa tão minúscula e tão insignificante impeça
para a maioria das pessoas a percepção de uma coisa destas? Pois se é compreensível que
todos tenham o seu momento patológico na vida, o fato é que, quando lecionamos e
falamos destas coisas em salas de aula onde há alunos se preparando para o Magistério,
vários dos quais contando com mais de trinta anos de idade, percebemos que era, na
verdade, a primeira vez em todas as suas vidas que se davam conta do espetáculo de que
falava Pitágoras.

Mas, chegando à escola, não paramos para perceber também que não
estávamos chegando sozinhos a esta nobre instituição. Para que pudéssemos aprender
alguma coisa, todo este aparato fenomenal que nos permitiu chegar à escola foi igualmente
mobilizado para trazer dos lugares mais diversos dezenas ou centenas de outras pessoas
para fazerem funcionar a escola normalmente enquanto pudéssemos estudar
tranqüilamente. O nosso pequeno objetivo de nos dirigirmos à escola assim encontrava
resposta em um aparato de escala mundial, mas nem nós, nem nenhum dos funcionários da
escola pensavam nisto. Nós estávamos preocupados com o atraso; os funcionários com o
salário que iam receber no fim do mês.
Como nós não observávamos o que acontecia à nossa volta, subimos as
escadas correndo. Encontramos então não apenas um corpo de funcionários, mas também
um corpo de professores que estavam sendo preparados desde a sua infância, recrutados
das mais diversas cidades e educados por milhares de outros professores para que
pudessem acumular um vasto conhecimento e tudo isto, enfim, para dar uma aula de 50
minutos às 20:00 horas.

Como é possível que um tão vasto complexo de forças naturais, das quais
esta discussão é apenas uma insignificante fração, pudesse estar tão adequadamente
ajustada para um objetivo tão pequeno? E que fêz aquele aluno em toda a sua vida para
merecer semelhante coisa em troca? Como se não bastasse, fazia mais de trinta anos que
ele nem sequer se dava conta de tudo isto, e iria passar mais outros quarenta e morrer
assim, reclamando da imensidão de seus problemas, se não despertasse, só por alguns
minutos, apenas durante aquela aula.






Quem não é capaz de entrever a admirável beleza que existe por detrás de tudo isto, e o inexplicável sono em que vivemos no nosso quotidiano?"

-A Educação Segundo a Filosofia Perene

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Crise do Mundo Moderno

É sempre bom um pouco de perspectiva para entendermos, ainda que superficialmente as condições sob as quais vivemos. Quanto mais se olha para trás e para cima, melhor será a percepção dos parâmetros pelos quais pautamos desde nosso valores mais profundos, até nossas mais frívolas opiniões. É nesse sentido que a filosofia perene nos coloca diante de um holofote, para que assim percebamos em quão grandes trevas andamos às apalpadelas, ainda que acreditando testemunhar a época de maior clarividência e no ápice da sabedoria e conhecimento.

- A Crise do Mundo Moderno


A palavra "filosofia", em si mesma pode seguramente ser tomada em um sentido muito legítimo, que sem dúvida foi o seu primitivo sentido, sobretudo, se for verdade, como pretendem, que foi Pitágoras quem a empregou antes de qualquer outra pessoa: etimologicamente ela não significa senão "amor à sabedoria"; designa portanto, em primeiro lugar, uma prévia disposição requerida para ascender à sabedoria, mas também pode designar, por uma extensão muito natural, a procura que, provindo desta mesma disposição, deve conduzir ao conhecimento. Não é pois senão um estágio preliminar o preparatório de um encaminhamento que conduz à sabedoria, mas que nem por isso deixa de estar abaixo dela. O descaminho que se produziu posteriormente consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, tem pretender substituir pela sabedoria a "filosofia", o que implica na falta de lembrança ou o desconhecimento da verdadeira natureza da primeira. E foi assim que nasceu o que poderemos chamar a filosofia "profana", isto é, uma pretensa sabedoria puramente humana e por conseguinte de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e "não humana". 


É este o resultado em que culminaria o movimento começado pelos gregos, em que já se afirmavam as tendências que seriam em nossos dias levadas às conseqüências mais extremas. A excessiva importância que deram ao pensamento racional, acentuou-se ainda mais, chegando ao "racionalismo", atitude especialmente moderna que consiste, não mais em só e simplesmente ignorar mas em negar expressamente tudo quanto seja de ordem supra-racional.

Já foram também várias vezes assinalados certos traços comuns entre a decadência antiga e a época atual; e sem querer levar muito avante o paralelismo, devemos, efetivamente, reconhecer nele várias semelhanças notáveis. A filosofia puramente "profana" tinha ganho terreno; o aparecimento do cepticismo de um lado, o sucesso do "moralismo" estóico e epicurista do outro, mostram bastante até que ponto a intelectualidade desceu. Ao mesmo tempo as antigas doutrinas sagradas, que quase mais ninguém compreendia, tinham degenerado, devido a esta incompreensão, ao "paganismo", no verdadeiro sentido do termo, isto é, não passavam de "superstições", coisas que, tendo perdido sua profunda significação, sobrevivem a si mesmas por manifestações unicamente exteriores.



O acelerado declínio de uma civilização pode ser exposto pela 
degeneração de seu  senso estético, aversão à justiça, e à moral. 
As noções de arte ilustram bem esse aspecto.


A verdadeira Idade Média, para nós, estende-se desde o reinado de Carlos Magno até os princípios do século XIV. Com esta última data começa uma mova decadência, que através de etapas diversas, se foi acentuando até nossos dias. E o verdadeiro ponto de partida da crise moderna é o começo da desagregação da "cristandade", com a qual se identificava essencialmente a civilização medieval no Ocidente. Ao mesmo tempo, o fim do regime feudal, assaz intimamente ligado e solidário com esta mesma "cristandade", é a origem da constituição das "nacionalidades". Portanto, é preciso considerar o começo dos tempos modernos dois séculos mais cedo do que se leva em conta habitualmente.

Quanto às ciências tradicionais da idade média, depois de terem apresentado ainda algumas manifestações finais, inerentes a esta época, desapareceram tão radicalmente como as das civilizações mais remotas que foram outrora aniquiladas por algum cataclismo; desta vez, porém, nada haveria para substitui-las. Daí por diante nada mais houve além da filosofia e da ciência "profanas", isto é, a negação da verdadeira intelectualidade, a limitação do conhecimento à ordem mais inferior, o estudo empírico e analítico dos fatos que não estão mais ligados a qualquer princípio, a dispersão numa multidão indefinida de detalhes insignificantes, o acúmulo de hipóteses sem fundamentos, que se destróem incessantemente umas às outras, e vistas fragmentárias que a nada podem conduzir, salvo a essas aplicações práticas que constituem a única superioridade efetiva da civilização moderna; superioridade aliás pouco invejável, e que desenvolvendo-se até abafar qualquer outra preocupação deu à esta civilização o caráter puramente material que a tornou uma verdadeira monstruosidade.

Há uma palavra que ocupou um lugar de honra na Renascença, e que resumia antecipadamente todo o programa da civilização moderna: o "humanismo". Tratava-se, com efeito, de reduzir tudo a proporções puramente humanas; prescindir de qualquer princípio de ordem superior, e poder-se-ia dizer simbolicamente desviar-se do céu sob o pretexto de conquistar a terra.

O "humanismo" já era uma primeira forma daquilo em que se transformaria o "laicismo" contemporâneo; e querendo reduzir tudo à medida do homem, tomado como fim, a si próprio, acabou êle por descer de etapa  em etapa ao seu mais baixo nível, e para só quase procurar a satisfação das necessidades inerentes ao lado material de sua natureza, pretensão afinal de contas bastante ilusória, pois que esta suscita sempre mais necessidades artificiais dia que as poderia satisfazer.

Irá o mundo moderno até o fim deste fatal declive, ou então, como aconteceu na decadência do mundo greco-latino, uma nova correção se produzirá, e ainda desta vez antes que tenha atingido o fundo do abismo para onde está sendo arrastado? Mas parece provável que uma parada a meio caminho não seja mais possível. Segundo todas as indicações fornecidas pelas doutrinas tradicionais, nós já entramos decididamente na fase final da Kali Yuga, no período mais sombrio desta "idade sombria", e deste estado de dissolução não é mais possível sair senão por um cataclismo, pois neste caso não bastará
uma simples retificação — será necessário uma renovação total. A desordem e a confusão imperam em todos os campos, foram levadas a um ponto que ultrapassa muito e muito tudo quanto se havia visto precedententente, e partindo do Ocidente, ameaçam agora invadir o mundo inteiro.




Efetivamente é mesmo isso o que nós podemos constatar na civilização moderna, que não vive por assim dizer, senão daquilo que as civilizações anteriores desdenharam. Para o evidenciar, basta ver de que modo os representantes das civilizações que se puderam ainda manter, até agora no mundo oriental, apreciam as ciências ociden tais e suas aplicações industriais. Entretanto estes conhecimentos inferiores, tão vazios aos olhos de quem possui um conhecimento de outra ordem, deviam ser "realizados", e para isso seria preciso que se encontrassem numa fase em que a verdadeira intelectualidade tivesse desaparecido.

É esse o caso de tôdas as civilizações a que podemos chamar normais, ou ainda tradicionais; não há entre elas nenhuma oposição essencial, e as divergências, quando existam são apenas exteriores e superficiais; uma civilização que não reconheça princípio algum superior, que só seja na realidade fundada sobre uma negação de princípios, é ipso-facto desprovida de todo o meio de entendimento com as outras, pois este entendimento para ser verdadeiramente profundo e eficaz, só pode estabelecer-se pelo alto, quer dizer, precisamente pelo que falta a esta civilização anormal e que perdeu sua rota. No presente estado do mundo, temos por conseguinte, de um lado todas as civilizações que permaneceram fiéis ao espírito tradicional, que são as  civilizações orientais, e de outro lado uma civilização propriamente antitradicional que é a civilização ocidental moderna.

Excertos do primeiro capítulo da obra homônima de René Guénon.